O Anarquismo individualista

Este texto é parte de uma pesquisa sobre o movimento anarquista feita por Flávio Luizetto e faz parte de uma série de artigos que será publica em omutualista.org, para ler os demais textos clique aqui.

De acordo com os militantes identificados com a escola individualista do anarquismo, a organização da futura sociedade libertária deveria obedecer ao principio da irrestrita liberdade individual, aspiração mais elevada da causa, razão primeira e maior que o próprio movimento.

Radicalmente contrárias a ordem social vigente e ás instituições que as resguardavam, sobretudo o estado, os anarquistas individualistas opunham-se com igual vigor, ás tendências do movimento revolucionário da época que pretendiam mudar a sociedade á custa de algumas limitações a serem impostas á liberdade individual.

Essa intransigência, além de colocar a escola individualista em em flagrante antagonismo com as teses expostas por Marx, indispunha-a com muitos companheiros situados no próprio campo anarquistas, defensores da ideia de se fundar a nova sociedade ácrata segundo os princípios proclamados pelas tendências coletivistas ou comunistas.

Pode-se avaliar o significado desta atitude lembrando do que o anarquista individualista norte-americano Benjamin Tucker, através de um artigo publicado no jornal Liberty, por ele dirigido, chegou a negar o direito de se intitularem anarquistas os coletivistas e comunistas libertários, com o que, naturalmente, ficavam de fora do movimento figuras como Bakunin e Kropotkin…

A defesa extrema do individualismo fez com que um delicado problema a todas as correntes representativas do anarquismo – o problema das relações entre individuo e coletividade – fosse equacionada de modo peculiar pelos adeptos do individualismo: Não é o individuo que deve adaptar-se á sociedade, mas a sociedade que deve moldar-se ao indivíduo.

Com uma breve e simples sentença, consagrou-se, dessa maneira, nos meios anarquistas, uma filosofia: a do egoísmo. O interesse individual é a medida de todas as coisas, e pelo fato de predominar, entre as pessoas, a diversidade de interesses, concluí-se, consequentemente, que além de inviável era indesejável pretender “corrigir” a situação recorrendo-se a fórmulas uniformizadoras ou niveladoras.

Neste âmbito surge a ideia de experimentação social, que define a anarquia como a experiência de diferentes modelos anarquistas sem comprometimento com fórmulas prontas como um arranjo coletivista, comunista, mutualista ou individualista, e também o espaço ao surgimento de modelos totalmente novos. No meio anarquista individualista também surgiu a ideia de que as “comunas” ou “associações de indivíduos federalizadas” poderiam inexistir ou ao menos ser completamente temporária durando o tempo suficiente para cumprir com os interesses pessoais de seus participantes, sendo elas geridas pelo princípios de democracia direta.

Motivado exclusivamente pelo próprio interesse, o indivíduo não se ocupa com o bem-estar da sociedade; utiliza-se dela para alcançar a sua felicidade pessoal. Seus objetivos não são políticos nem sociais; são egocêntricos tão-somente. Nada há de comum entre os homens; a singularidade constitui o atributo da natureza humana, e é justamente essa característica que deve ser cultivada e estimulada.

Pouco importa o fato de os indivíduos terem de viver juntos; a vida social transcorre sob a influência de uma inelutável circunstância, ou seja um individuo encontra-se em permanente conflito com todos os outros. Nessa perspectiva individualista, a coletividade é vista com indisfarçada desconfiança, pois encarna o fator que maior transtorno provoca para a plena realização pessoal. Não era por outra razão que os anarquistas individualistas afirmavam ser a sociedade quando “representada” ou não pelo estado a maior inimiga do indivíduo.

A vida social, de acordo com tal ponto de vista, flui sob constante e irreversível tensão, já que o individuo necessita estar sempre a defender a sua liberdade, a preservar a sua singularidade. É contrassenso, portanto, buscar em todos os âmbitos a conciliação dos interesses individuais e coletivos, e não passa de uma enorme insensatez desejar que algum deles predominem sobre o outro, para os individualistas mais especificamente os interesses coletivos, pois esses interesses “coletivos” não existem.

Dessa forma no campo do anarquismo individualista não se cogitava lutar em prol de modelos sociais baseados no coletivismo ou no comunismo se estes modelos não fossem beneficiar o interesse pessoal do “lutador” ou “militante”, que para eles representava modalidades de convivência social contrárias á ordem natural das coisas, na medida em que almejam diluir as diferenças individuais em nome de um artificioso igualitarismo.

A possibilidade de existir na futura sociedade alguma forma de estrutura associativa entre os indivíduos não era, contudo, inteiramente negada pelos anarquistas individualistas, mas tal associação deveria ter, necessariamente, caráter provisório, temporário. Assim seria, por exemplo, a possível “União dos Egoístas”, prevista pelo mais conhecido “representante” do individualismo, Max Stirner: “Espontaneamente formada com o intuito específico de defender os interesses particulares dos seus membros, a precária agremiação seria automaticamente dissolvida, logo que cumprida a sua finalidade”.

Para os individualistas, a exemplo de Stirner, existia uma outra forte razão para a rejeição dos projetos socialistas formulados pelos companheiros anarquistas ligados a outras escolas do movimento: em qualquer das modalidades dos socialismos sugeridas seria admitido a existência de alguma instância supra-individual de poder, capaz de definir procedimentos coletivos, de impor regulamentos gerais e de arbitrar toda a sorte de divergências e conflitos. Com isso ver-se-ia subordinado a um emaranhado conjunto de interesses estranhos, ainda que muitos coletivistas não vissem como obrigatória a participação do individuo na organização popular, já que os seus objetivos particulares não coincidem com os da coletividade.

O anarquista individualista combatia, evidentemente, o estado, instituição que expressa a dominação de um grupo social sobre a sociedade em geral e sobre o individuo em particular. Entretanto, não via nenhum progresso nos modelos de transformação social que aspiravam instaurar a dominação da sociedade sobre o individuo. Esse inconveniente existia, no seu entender, em todas as fórmulas socialistas, anarquistas ou não, ainda sim anarquistas individualistas toleravam organizações anarquistas coletivistas se estas fossem voluntárias e livremente aceitas pela população local e consideravam essencialmente danosa as organizações coletivistas impostas como a ditadura do proletário.

Se os movimentos revolucionários tinham, efetivamente, o propósito de abolir o regime de exploração do homem pelo homem, deveriam orientar-se de acordo com critérios adequados para tanto. É inconsequente, segundo os anarquistas individualistas, defender a abolição da dominação exercida por uma classe social sobre toda a sociedade e propor, em troca, o império da sociedade sobre o individuo. Sacrificar as liberdades individuais segundo os interesses do estado ou da sociedade dá no mesmo.

No lugar das fórmulas socialistas em voga, inócuas porque baseadas no equivocado ponto de vista segundo o qual os interesses coletivos devem prevalecer sobre os interesses pessoais, o anarquismo individualista radical propõem que o movimento revolucionário proclame, simplesmente, a necessidade de se instaurar o reinado da soberania individual.

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Um comentário sobre “O Anarquismo individualista

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